DECAY

O dente estava podre.

Ficou no fundo da minha boca por meses, sujando tudo que comi e tudo que bebi.

Quando eu tentei com a minha língua, pude sentir o buraco infeccionando. Era uma cratera escura. Ameaçando abrir todo o meu crânio.

Não percebi quando começou a doer. Eu comecei d a existir em um mundo onde só havia dor. Eu acordaria. Eu iria me deleitar no breve e branco momento de silêncio em que esqueci que havia alguma dor. Onde eu esqueci que estava sofrendo. Em seguida, a luz iria romper a crista do horizonte e bater em mim. Os ossos da mandíbula doendo. Crânio reverberando de dor. Cada fibra do meu ser buscando um espaço no universo onde não houvesse sentimento.

O dente morreu. Meses de sondagem e reflexão. Lembrar e tocar, buscando o que um dia foi e o que poderia ter sido. O preto. Fedor horrível. Podre. Nervo morto.

Quando o nervo morre, toda esperança morre com ele. Nada dói, mas também não há sensação. Não há calor ou toque. Nada. Espaço morto.

Alguém enfiou a mão na minha boca e raspou todo o tecido morto. Eles retiraram essa massa cinzenta e a colocaram diante de mim para inspeção. Luz brilhante. Lentes escuras. Houve uma leve flor de sangue na borda dessa coisa que eles tiraram do meu corpo.

Então eles jogaram o dente fora.

Existe agora um preenchimento branco e liso na cavidade. Agora não há nenhum buraco ameaçando saquear a integridade da minha boca. Eu corro minha língua sobre ele, tocando-o. Sondando. Agora é parte do meu ser, mas estou separado dele. É como se eu pudesse ver isso perto de mim, sentir, assimilar em meu ser.

Mas nunca será meu. Não pode ser eu. Não sou eu, e eu não sou isso. Não há mais dor.

Mas também não há muito sentimento.